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Agricultura

Refúgio no milho Bt: finalidade e planejamento da área

A exigência agronômica de destinar pelo menos 10% da área com híbridos convencionais para evitar a quebra biológica da tecnologia.

Publicado em Atualizado em 8 min de leitura · horário de Brasília
Talhão de milho comercial exibindo faixa demarcada de refúgio agronômico convencional sem tecnologia Bt
O refúgio estruturado gera mariposas suscetíveis que cruzam com mariposas resistentes raras, mantendo a suscetibilidade dos descendentes. Foto: Pauta da Terra / Divulgação

A tecnologia do milho geneticamente modificado expressando proteínas inseticidas da bactéria Bacillus thuringiensis (milho Bt) foi um divisor de águas na agricultura brasileira, reduzindo drasticamente o número de pulverizações pesadas de inseticidas contra lagartas. No entanto, muitos produtores interpretaram a tecnologia como uma 'cura definitiva' e deixaram de adotar a prática obrigatória e vital do Refúgio Estruturado.

O resultado dessa negligência foi trágico para o agronegócio: em poucos anos, lagartas resistentes selecionaram mutações contra as proteínas Cry1F e Cry1Ab, forçando as empresas a desenvolverem novas gerações de eventos biotecnológicos (como Vip3Aa) e elevando os custos de royalties da semente.

1. A lógica biológica do Refúgio: como funciona

O refúgio baseia-se em um princípio clássico de genética de populações:

  • Na natureza, antes do plantio do milho Bt, a mutação genética que confere resistência a uma toxina Bt é extremamente rara (por exemplo, 1 em cada 1 milhão de indivíduos). Esses indivíduos resistentes raros são quase sempre homozigotos recessivos (rr);
  • Quando 100% da fazenda é plantada com milho Bt, todas as lagartas normais sensíveis (SS) morrem. As poucas resistentes (rr) sobrevivem, encontram-se, cruzam entre si e geram uma prole 100% resistente, quebrando a tecnologia em 2 ou 3 safras;
  • O papel da área de refúgio: Ao manter 10% da área plantada com milho convencional (não-Bt), milhares de mariposas sensíveis (SS) sobrevivem sem sofrer pressão da toxina. Quando essas mariposas sensíveis saem para voar, a chance matemática de uma mariposa resistente rara (rr) cruzar com uma sensível (SS) é imensa, gerando descendentes heterozigotos (Sr) que continuam sendo mortos pela alta dose da toxina do milho Bt.

2. Regras práticas de implantação do Refúgio

Para que o refúgio funcione de verdade no campo, ele precisa obedecer a três regras de ouro:

  1. Percentual mínimo: Deve ocupar no mínimo 10% da área total de milho da propriedade;
  2. Distância máxima de 800 metros: A área de refúgio deve estar situada a no máximo 800 metros de qualquer ponto do talhão de milho Bt. Esse é o raio médio de voo noturno das mariposas de Spodoptera para acasalamento;
  3. Mesmo ciclo e porte: O híbrido não-Bt escolhido para o refúgio deve ter o mesmo ciclo fenológico (dias até florescimento) e porte similar ao do híbrido Bt, para que ambas as áreas floresçam juntas e as mariposas sincronizem seus períodos reprodutivos.

3. Como manejar a área de refúgio

Ter uma área de refúgio **não significa abandonar o milho para ser devorado pelas lagartas**. O produtor pode e deve aplicar inseticidas no refúgio, mas com uma restrição fundamental: nunca utilizar bioinseticidas à base de Bt na área de refúgio e intervir somente quando a amostragem atingir o nível de dano econômico (cerca de 20% das plantas raspadas), utilizando inseticidas químicos convencionais de choque.

Acompanhe o monitoramento da praga em lagarta-do-cartucho no milho e a escolha dos materiais em escolha de híbridos comerciais.

Fontes consultadas

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