Alimentação do gado na seca: como planejar a oferta de alimento
Silagem, pastejo diferido, cana com ureia e sal proteico: descubra como blindar o rebanho contra a entressafra e eliminar o prejuízo do boi sanfona.

Na maior parte das regiões produtoras do Brasil Central e Sudeste, o regime de chuvas é caracterizado por uma forte sazonalidade: 80% da precipitação anual cai entre outubro e março (período das águas), enquanto os meses de maio a setembro enfrentam estiagens severas e baixas temperaturas.
Durante a seca, as pastagens diminuem drasticamente seu ritmo de crescimento, perdem umidade e aumentam a proporção de fibra indigestível (lignina), derrubando o teor de proteína bruta para patamares inferiores a 5% ou 6%. Sem intervenção nutricional na pecuária bovina, os animais entram no chamado "efeito sanfona": perdem nos quatro meses secos grande parte do peso conquistado com esforço durante o verão.
1. O planejamento forrageiro começa no verão
O maior erro cometido pelo pecuarista é esperar o capim secar para buscar soluções emergenciais no mercado, quando os preços de insumos e rações já atingiram o ápice do ano. A estratégia de alimentação na seca deve ser calculada e plantada durante as chuvas:
- Estime o número de cabeças que permanecerão na propriedade durante a entressafra.
- Calcule o consumo diário de matéria seca (cerca de 2% a 2,5% do peso vivo).
- Multiplique pelo número de dias estimados de estiagem (habitualmente entre 120 e 150 dias).
2. Alternativas forrageiras para a seca
Existem quatro estratégias consagradas para fornecer volumoso de qualidade ao rebanho durante os meses sem chuva:
A. Pastejo diferido (ou "feno-em-pé")
Consiste em vedar (fechar) determinados piquetes de pasto no final do verão (fevereiro ou março), permitindo que a forrageira acumule biomassa antes do fim das chuvas. Gramíneas como o Brachiaria decumbens ou cultivares de Brachiaria brizantha (como o Piatã) se prestam muito bem ao diferimento. Como esse capim estará maduro e seco no inverno, ele precisa ser acompanhado obrigatoriamente por sal proteico no cocho.
B. Silagem de milho ou sorgo
É o padrão-ouro de alimento volumoso conservado para sistemas intensivos de corte e leite. A silagem fornece alta densidade energética e boa palatabilidade. O ponto ideal de colheita ocorre quando o grão atinge o estágio de meia linha de leite (cerca de 32% a 35% de matéria seca). A compactação rápida e a vedação hermética com lona plástica são essenciais para evitar perdas por mofo.
C. Cana-de-açúcar corrigida com ureia
A cana-de-açúcar atinge seu ápice de teor de sacarose exatamente nos meses de inverno e seca. No entanto, ela é paupérrima em proteína (cerca de 2% a 3%). A tecnologia desenvolvida pela Embrapa corrige essa carência misturando 9 partes de ureia com 1 parte de sulfato de amônio, diluída em água e pulverizada sobre a cana picada no cocho (na proporção de 1% da mistura para o peso da cana in natura). A adaptação gradual do rebanho durante 15 dias é obrigatória para evitar intoxicações por amônia.
3. Suplementação proteico-energética no cocho
Mesmo com capim seco abundante no pasto, as bactérias do rúmen do boi não conseguem digerir a fibra lignificada se não houver nitrogênio disponível. O uso de sal proteico (consumo de 1 a 2 g por kg de peso vivo) ou suplemento proteico-energético (consumo de 3 a 5 g/kg PV) multiplica a população de microrganismos ruminais, acelerando a taxa de passagem da forragem e permitindo que o boi continue ganhando entre 200 g e 400 g ao dia em vez de definhar.
Para aprender a dimensionar cochos e escolher os componentes ideais de minerais e farelos, confira o guia de suplementação mineral de bovinos e entenda como estruturar o manejo de pastagens para a entrada no outono. Se a propriedade planeja terminar animais no período, avalie as alternativas de semiconfinamento e confinamento, mantendo-se sempre alerta aos relatórios climáticos de seca agrícola.





