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Café: entenda os tipos, a produção e o que influencia o preço

Do campo à xícara, conheça as espécies arábica e canéfora, as etapas de cultivo e pós-colheita, as regras de classificação da bebida e as dinâmicas globais que definem as cotações.

Publicado em 9 min de leitura · horário de Brasília
Grãos de café maduros no cafeeiro e xícara de café torrado
O Brasil é o maior produtor e exportador mundial de café, liderando a oferta de arábica e conilon. Foto: Divulgação editorial / Pauta da Terra

O café é mais do que a bebida mais consumida no Brasil depois da água: ele representa um dos pilares históricos e econômicos do agronegócio nacional. O país responde por mais de um terço da produção global do grão e lidera as exportações mundiais, abastecendo mercados exigentes na Europa, América do Norte e Ásia.

Compreender o universo do café exige observar a lavoura em duas frentes complementares: de um lado, a ciência agronômica (espécies botânicas, florada, maturação e processamento pós-colheita); de outro, a economia de mercado (cotações em bolsa de futuros, taxa de câmbio, bienalidade e custos que incidem até a gôndola do supermercado).

As duas grandes espécies: arábica e conilon

Toda a cafeicultura comercial do planeta concentra-se em duas espécies botânicas do gênero Coffea, que apresentam exigências de clima, manejo e perfis sensoriais muito distintos:

  • Café arábica (Coffea arabica): Originário das florestas montanhosas da Etiópia, é cultivado preferencialmente em altitudes acima de 700 a 800 metros, em regiões de clima ameno como o Sul de Minas, Cerrado Mineiro, Matas de Minas, Alta Mogiana (SP) e Chapada Diamantina (BA). Destaca-se pela doçura natural, aroma complexo, acidez agradável e menor teor de cafeína (cerca de 1,2%). Representa a base dos cafés finos e especiais.
  • Café conilon / robusta (Coffea canephora): Originário das bacias equatoriais africanas, é uma planta rústica, vigorosa e tolerante a temperaturas mais altas, adaptando-se perfeitamente a altitudes baixas (abaixo de 600 metros). No Brasil, os grandes polos são o Espírito Santo e Rondônia (com os premiados Robustas Amazônicos). Possui quase o dobro de cafeína (2,2% a 2,7%), maior corpo e alto rendimento de sólidos solúveis, sendo essencial para a indústria de café solúvel e para a composição de blends encorpados.

Para aprofundar os aspectos agronômicos e químicos de cada variedade, confira nossa análise sobre as diferenças entre arábica e conilon.

O ciclo produtivo e a bienalidade da planta

Diferente de grãos anuais como soja e milho, o cafeeiro é uma cultura perene que exige de dois a três anos após o plantio das mudas para iniciar sua primeira colheita comercial. Seu ciclo é regido pelo fenômeno fisiológico da bienalidade:

  • Ano de alta carga (bienalidade positiva): A planta dedica sua energia à frutificação intensa, gerando altas produtividades por hectare, mas reduzindo o crescimento de novos ramos vegetativos.
  • Ano de baixa carga (bienalidade negativa): Após o esforço reprodutivo da safra anterior, o cafeeiro precisa recuperar sua folhagem e emitir novos nós foliares, resultando naturalmente em menor número de frutos.

A bienalidade é especialmente marcante no café arábica. O manejo agronômico moderno — com podas programadas (esqueletamento e decote), adubação equilibrada e irrigação por gotejamento — atua para suavizar essas oscilações e estabilizar a produção da propriedade.

Da colheita à secagem: onde nasce a qualidade

A colheita do café no Brasil ocorre tipicamente entre maio e agosto/setembro, aproveitando o período de estiagem de inverno no Sudeste. A forma de colheita e o processamento pós-colheita determinam a qualidade da bebida:

  • Colheita seletiva manual vs. mecanizada: Em áreas montanhosas, a colheita é manual; em terrenos planos e suave-ondulados (como o Cerrado Mineiro e Mogiana), colheitadeiras automotrizes vibram os ramos e colhem com alta eficiência operacional.
  • Via seca (café natural): O fruto é recolhido e levado com casca e polpa diretamente para o terreiro de secagem ou secador mecânico. Esse método confere corpo denso, notas amendoadas e doçura caramelizada.
  • Via úmida (cereja descascado ou despolpado): Os frutos maduros são lavados e passam por despolpadores mecânicos que removem a casca antes da secagem. O resultado é uma bebida mais limpa, com acidez brilhante e notas florais ou cítricas.

Classificação: do tradicional ao especial

No comércio nacional e internacional, os lotes de café são classificados por critérios físicos (tamanho da peneira, formato do grão e contagem de defeitos) e critérios sensoriais (a tradicional "prova de xícara"):

Categoria Critério de Qualidade Perfil de Bebida Mercado Típico
Tradicional / Extraforte Padrão ABIC básico; aceita percentual tolerado de grãos com defeitos leves. Torra escura, sabor forte, amargor pronunciado, corpo alto. Supermercados, consumo diário de massa.
Superior Padrão ABIC intermediário; maior proporção de grãos arábica sadios. Torra média, sabor equilibrado, leve acidez e aroma agradável. Varejo premium, escritórios e cafeterias.
Gourmet Grãos 100% arábica sem defeitos graves, excelente doçura e acidez. Bebida mole ou estritamente mole, notas aromáticas nítidas. Cafeterias e marcas selecionadas de varejo.
Café Especial (SCA) Avaliação internacional com nota igual ou superior a 80 pontos (escala até 100). Zero defeitos primários, acidez refinada, rastreabilidade de lote e terroir. Microlotes, cafeterias de especialidade, exportação de alto valor.

Saiba mais sobre como funciona a pontuação dos provadores certificados no guia sobre café especial e metodologia SCA.

Como se forma o preço do café

O preço do café verde no campo é balizado pelas cotações internacionais negociadas na Bolsa de Nova York (ICE US) para o arábica e na Bolsa de Londres (ICE Europe) para o conilon. A taxa de câmbio (relação dólar/real) tem peso decisivo: quando o dólar sobe, o valor em reais por saca tende a aumentar no mercado interno, incentivando as exportações.

No Brasil, a referência diária de negociação física é apurada pelo Cepea/Esalq nas principais cooperativas e praças produtoras. Do valor da saca bruta até o pacote vendido no supermercado, agregam-se perdas de peso na torra (cerca de 15% a 20%), custos industriais, embalagens a vácuo, frete e margens do varejo.

Acompanhe em detalhes as cotações no artigo sobre o preço do café hoje e compreenda por que as secas e quebras de safra geram altas no artigo por que o café fica caro.

Fontes consultadas

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